Lacunas no calendário de vacinação podem levar a novas crises na saúde

Engana-se quem pensa que o processo de vacinação encerra após a aplicação da dose. Em casos em que um reforço (nova aplicação) precisa ser realizado ou mesmo quando uma única dose no início da vida é suficiente, ocorre um grande monitoramento por parte dos órgãos governamentais de saúde a fim de impedir uma nova onda infecciosa no país, o reaparecimento de doenças já erradicadas (eliminadas) e a cobertura total de todos os cidadãos.

Esse monitoramento e disponibilização de dados a nível global guia as diretrizes de imunização ao redor do globo, especialmente em países de média e baixa renda. A pólio e a varíola, por exemplo, são doenças já erradicadas pela vacinação, enquanto o sarampo ainda persiste, devido a falhas nesse processo. No caso específico do sarampo, duas doses são necessárias para garantir a correta imunização e este processo tem sido ameaçado nos últimos 10 anos devido a diversos fatores, entre os quais destaca-se a negação que alguns desenvolveram em receber as vacinas, movimento muito visto também neste ano de 2020 frente a pandemia do novo coronavírus.

O avanço computacional quanto ao mapeamento e armazenamento de dados tem sido um grande aliado à saúde. Cientistas tem utilizado desses recursos para avaliar com maior precisão os eventos envolvidos no processo de vacinação, levando em conta questões importantes como fatores socioeconômicos e acesso a áreas remotas. Esses sistemas têm se tornado mais sofisticados, de modo que se torna possível avaliar áreas menores, ou seja, com menor densidade (quantidade) populacional por área e, assim, mensurá-la com relação a outros pontos do mesmo país ou do globo.

Um grupo de cientistas conduziu pesquisas acerca da vacinação contra o sarampo entre o período de 2000 à 2019, abrangendo uma amostra de cerca de 1.7 milhões de crianças de 101 países e, após, combinando outros fatores relacionados,, e usando de uma sofisticada modelagem computacional preveram, mapearam e avaliaram quanto a cobertura da vacina do sarampo nessas nações.

Este estudo revelou desigualdades na cobertura da imunização dentro de um mesmo país e, por consequência, também entre distintas nações, especialmente na África e Ásia. Ainda, o número de crianças não vacinadas é maior em áreas urbanas do que em áreas rurais e que em 2019 a cobertura de imunização foi mais desigual em Angola, Etiópia, Nigéria, Madagascar e Paquistão. No entanto, talvez o dado mais significativo seja de que apenas 15 das 101 nações avaliadas tem alta probabilidade de atingir as metas estabelecidas pela ONU (Organização das Nações Unidas) que visa uma cobertura de 80% até o final deste ano de 2020, meta menor do que o necessário no caso do sarampo onde 95% de crianças imunizadas (com as duas doses) é necessária para atingir uma imunização coletiva (quando os não vacinados ficam “protegidos”, mas não imunes, devido a vacinação da maioria populacional).

Os autores alertaram para o fato de que países que não possuíam uma cobertura significativa de vacinação antes do período de pandemia provavelmente estarão piores depois dela. Ainda, alertaram para o fator de o mapeamento nesse estudo pode estar acima da estimativa nas populações de risco, que incluí principalmente cidadãos em zonas de conflito e área remotas. Cabe salientar que a ONU possuí um programa chamado Agenda de Vacinação 2030 que reconhece e estimula a necessidade de equidade na cobertura de vacinação dentro dos países na busca de alcançar um mundo erradicado de sarampo e, também, de outras enfermidades que podem ser evitadas por esse processo. O estímulo a um mapeamento rigoroso por parte do governo, podendo transferi-lo, inclusive, para instituições acadêmicas locais é um fator estimulado pelos autores, uma vez que aumenta a fidelidade dos dados disponibilizados, contribuindo com a população frente a necessidade de maior investimento e atenção na saúde em áreas pouco contempladas.

Fonte: Utazi, CE & Tatem, AJ. Precise mapping reveals gaps in global measles vaccination coverage. Nature, 2020.
Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-020-03391-1

Enviado por: Isabel Roggia, graduada em Farmácia pela Universidade Franciscana (UFN) e Pós-doutoranda em Gerontologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/4020469474371818

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