O papel da dieta na prevenção do risco recorrente do acidente vascular cerebral (AVC)

O acidente vascular cerebral (AVC), também chamado de derrame cerebral, é a segunda principal causa de morte e incapacidade em todo o mundo, com aproximadamente um quarto de todos os eventos ocorrendo em pessoas que já tiveram um AVC anteriormente. A estimativa é de que existam cerca de 80 milhões de pessoas no mundo que já sofreram pelo menos um AVC.

A dieta, por sua vez, é um componente crucial de um estilo de vida saudável, particularmente para prevenir doenças cardiometabólicas. A qualidade da dieta é um fator de risco importante para a incidência e carga do primeiro AVC. Além disso, os hábitos alimentares têm um efeito direto nos fatores de risco causadores do derrame cerebral, incluindo pressão arterial e peso corporal.

Após o primeiro AVC, geralmente os pacientes demonstram interesse ​​em informações sobre dieta para a prevenção de um derrame cerebral secundário e realmente é provável que a intervenção dietética desempenhe um papel preventivo na recorrência do AVC. No entanto, o aconselhamento e os serviços sobre dieta raramente são incorporados à rotina de cuidados dos pacientes após um AVC, em parte devido à insuficiência de evidências relevantes para a prática clínica da associação direta entre a qualidade da dieta e a redução do risco de AVC recorrente.

Nesse sentido, um estudo realizado por English e colaboradores (2020) buscou avaliar e interpretar criticamente as evidências dos efeitos da dieta na prevenção do AVC secundário, a fim de fornecer orientação para a prática clínica. Os pesquisadores concluíram que as evidências atuais são muito fracas e não garantem confiabilidade. No entanto, eles sugerem que as melhores evidências para a prevenção do AVC secundário apoiam o aumento da adesão a uma dieta de estilo mediterrâneo (caracterizada pela alta ingestão de azeite de oliva, frutas, nozes, vegetais e cereais; ingestão moderada de peixes e aves; baixo consumo de laticínios, carnes vermelhas, carnes processadas e doces; e consumo moderado de vinho junto com as refeições), evitando a ingestão excessiva de sal (sódio) e usando suplementação de ácido fólico em áreas de baixa fortificação (o ácido fólico é uma vitamina com importantes benefícios para o organismo).

O estudo também ressaltou a necessidade de grandes ensaios clínicos randomizados (estudos com seres humanos, onde um grupo de interesse faz uso da terapia que está sendo testada e o efeito é comparado com o do grupo controle, que não recebeu o tratamento) de intervenções dietéticas com pessoas que já tiveram um primeiro AVC, ressaltando que tais ensaios devem ser cuidadosamente planejados e executados de forma robusta, levando em consideração interferentes, como a ingestão simultânea de outros alimentos, a genética, o metabolismo e a exposição a outros fatores sociais e comportamentais não dietéticos. Os autores também sugeriram que avaliações de padrões alimentares completos, ao invés de nutrientes individuais ou componentes alimentares, seriam uma abordagem mais relevante nesta população.

Os fatores de risco para o AVC recorrente refletem amplamente aqueles do primeiro AVC, mas há diferenças importantes no perfil clínico dessas duas populações. Pessoas no ambiente de prevenção secundária têm maior probabilidade de serem mais velhas, mais frágeis, com mais comorbidades e uso concomitante de diversos medicamentos, em comparação com a população no ambiente de prevenção primária. Assim, a tradução das intervenções dietéticas da prevenção primária para a secundária precisa de uma justificativa forte, idealmente a partir de evidências diretas baseadas em ensaios clínicos randomizados para garantir o sucesso das mudanças dos hábitos alimentares na prevenção do risco desses pacientes.

Embora as lacunas de evidência permaneçam, acredita-se que apoiar as pessoas com AVC a fazerem melhorias sustentadas na qualidade da dieta provavelmente reduzirá seu risco de um evento secundário. Os hábitos alimentares à base de plantas, incluindo a dieta de estilo mediterrâneo, têm pouca probabilidade de causar danos e podem ter benefícios de longo alcance para a saúde geral e para a redução do risco recorrente do derrame cerebral.

Fontes:

English e colaboradores. Publicado na revista The Lancet Neurology, em dezembro de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(20)30433-6/fulltext?rss=yes

Wu e Anderson. Publicado na revista The Lancet Neurology, em dezembro de 2020.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/laneur/article/PIIS1474-4422(20)30450-6/fulltext

Enviado por: MSc. Cibele Ferreira Teixeira – Doutoranda em Farmacologia, Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9457577413344566

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