Retrospectiva 2020: As 10 maiores descobertas científicas do ano

O ano de 2020 está findando e, embora estejamos frente a uma nova realidade, as pesquisas científicas continuaram sendo realizadas em seus mais diversos tópicos. Biologia, física e química, por si ou cooperativamente, apresentaram muitos estudos relevantes e, entre eles, a revista Nature listou dez que, brevemente, comentaremos agora.

A física lançou luz sobre o comportamento da matéria e antimatéria através do estudo das pesquisadoras Silvia Pascoli e Jessica Turner. As duas mostraram a “quebra” no comportamento da matéria com a antimatéria. De modo sucinto, cada partícula tem uma “contra” partícula que possuí o mesmo comportamento, mas cargas opostas e, em um mundo espelho, deveriam se comportar da mesma forma. Neutrinos são partículas que possuem 3 características dependendo da partícula a ele associada, enquanto viajam eles podem mudar sua característica, mas devem conservar sua simetria espelho matéria-antimatéria. Com a ajuda de um observatório no Japão capaz de detectar essas partículas, as pesquisadoras foram capazes de observar o que seria o primeiro indício assimétrico da matéria-antimatéria em nosso Universo.

Aproveitando que mencionamos Universo e podemos falar do que há no espaço, já considerou o nível de tecnologia empregado em um satélite capaz de localizar objetos com cerca de 1 metro quadrado? Um processo similar foi usado por Hanan & Anchang na tentativa de mapear todas as árvores do mundo. O satélite cobriu 1.3 milhão de quilômetros quadrados no Saara e África Ocidental e localizou, individualmente, 1.8 bilhões de copas de árvores, feito nunca realizado em uma área tão extensa. Essa pesquisa é importante para modelagens e gerenciamentos de ecossistemas terrestres.

A proteção ambiental é um fator essencial, motivo pelo qual um fenômeno que chamou muita atenção na década de 80 tenha sido a descoberta de um buraco na camada de ozônio na Antártica e responsável por alterar os jatos de verão, mudando a corrente atmosférica. O protocolo de Montreal (1987) elaborou diretrizes para limitar a emissão de poluidores que agravariam esse problema e, com sua redução, houve uma recuperação dessa camada afetada. Cientistas em parceria com Banerjee foram os primeiros a comprovar que esta recuperação já não afeta mais a circulação atmosférica.

Falando em comprovar, muito se lê e escreve sobre existir ou não vida inteligente fora do nosso planeta. Essas notícias ganharam força após a detecção de ondas de rádio dentro de nossa galáxia. No entanto, ainda não foi dessa vez que poderemos dizer que tivemos um contato extraterrestre, isso porque o fenômeno observado é muito difícil de ser captado, foi observado pela primeira vez em 2007 e tem duração de milissegundos (menos de 1 segundo). Nesse caso, foi originado por um magnetar, uma espécie de estrela de nêutrons com alto poder magnético.

Ondas magnéticas são algo que nossos olhos humanos não podem ver, assim como a estrutura de uma molécula proteica. Sabemos, no entanto, que a forma de uma proteína é que dará sua função dentro de um organismo. Porém não localizamos até o momento quais átomos formam uma proteína, fato que foi vencido por uma técnica chamada microscopia crio-eletrônica de partícula (crio-EM) usada por Herzik Jr.

O DNA é composto por variadas sequência de aminoácidos e através de sua análise Cassidy e colaboradores descobriram relações incestuosas em um túmulo na Irlanda. Ao analisar estruturas sociais agrícolas os pesquisadores encontraram um monumento mortuário de cerca de 5 mil anos onde evidenciaram que um dos corpos enterrados pertencia a um homem filho de uma relação de primeiro grau (seus pais eram irmãos ou pais) o que levou os cientistas a considerar que a elite da época, responsável pelo monumento, praticava o ato como tentativa de manter uma linhagem dinástica pura.

O HIV por sua vez é um vírus que pode se inserir em nosso DNA e permanecer adormecido por anos, nunca sendo detectado pelo sistema imune do organismo e, assim, dificultando a cura do portador. Um tratamento de choque estimula as células a realizarem a replicação viral, é como se o vírus fosse forçado a sair do seu esconderijo e, uma vez que a síntese de partículas virais aumente, junto com os tratamentos adequados, é possível permitir ao corpo a eliminação dessas células contaminadas e redução do reservatório viral do portador.

O tratamento de choque pode não soar muito agradável, assim como muitos também relatam não ser agradável a fruta (Morinda citrifolia) conhecida como noni e muito cultivada no Taiti. Acontece que gosto não se discute. Uma espécie de mosca de fruta (Drosophila sechellia) diferente de suas “parentes” que tem um paladar mais amplo, se alimenta apenas dessa fruta. Cientistas liderados por Auer descobriram por uma técnica de edição de genes que os neurônios sensoriais dessa mosca expressam uma proteína de receptor odorífero de modo mais marcante do que outras espécies de mosca da fruta e que pequenas modificações na sequência de aminoácidos contribuem para seu gosto particular. Muitos podem se perguntar por que essa descoberta é tão relevante e a resposta reside no fato de que as moscas do tipo Drosophila são largamente utilizadas em estudos devido a suas similaridades com os seres humanos e, nesse caso, como a evolução pode contribuir para mudanças comportamentais.

Por fim, precisamos mencionar um tópico relacionado a doença causado pelo SARS-CoV-2 (Covid-19) que causou a morte de milhares de pessoas em todo o mundo. A deficiência do interferon, especialmente do tipo I é uma característica herdada, ou seja, de caráter genético. Essa proteína é um sinalizador retroviral importante e sua deficiência foi relacionada a casos mais graves de Covid-19. A deficiência pode ter origem na produção de anticorpos que neutralizariam o próprio interferon e uma alternativa seria uma terapia que fornece a molécula em deficiência.

A ciência avança em diferentes frentes, mas os acontecimentos atuais podem moldar seu funcionamento, uma vez que a necessidade de novas descobertas a fim de salvar mais vidas, como em uma pandemia por exemplo, pode destinar maior suporte financeiro para pesquisas relacionadas a isso. No entanto, esse breve relato científico de 2020 nos mostra como a ciência consegue ser dinâmica, mesmo nas adversidades vivenciadas.

Fonte: Nature 588, 596-598 (2020).
Disponível em: https://doi.org/10.1038/d41586-020-03514-8

Enviado por: MSc. Moisés Henrique Mastella. Biólogo, Doutorando em Farmacologia Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4345010332881664

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