Tratamento precoce com corticosteroides influencia na eliminação do Coronavírus?

Desde o surgimento da COVID-19, os pesquisadores vêm realizando uma grande busca por medicamentos que possam auxiliar no tratamento dessa doença. Como ainda não existem tratamentos antivirais comprovados, muitos imunossupressores foram avaliados a fim de tentar reduzir a hiperinflação associada à COVID-19. Os corticosteroides são uma das classes de medicamentos testados, por serem remédios que possuem uma ampla ação anti-inflamatória e já vinham sido utilizados em pacientes com infecções respiratórias.

Como estudos anteriores demonstraram uma mortalidade mais baixa em pacientes tratados com corticosteroides, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a recomentar o uso desses medicamentos para o tratamento de pacientes com COVID-19 grave e crítico.

Por serem poucos os dados disponíveis sobre a diminuição da carga viral em tratamentos precoces com corticosteroides e por muitos médicos acreditarem que tais medicamentos poderiam atrasar a eliminação viral, um estudo foi realizado com pacientes internados no Hospital San Raffaele, em Milão, na Itália, objetivando avaliar o impacto dos corticosteroides em pacientes com a COVID-19.

O estudo foi realizado com 280 pacientes entre 50 e 75 anos, majoritariamente homens e com algum fator de risco para complicações da COVID-19. 21,1% dos pacientes foram tratados com corticosteroides enquanto os demais eram tratados com outros medicamentos, como antirretrovirais, hidroxicloroquina e agentes imunomoduladores.

Após comparar pacientes tratados com corticosteroides e pacientes para os quais não houve a administração dessa classe de medicamentos concluiu-se que o tratamento com corticosteroides não teve impacto na diminuição da carga viral. No entanto, o estudo observou uma relação entre o atraso na diminuição da carga viral e a idade avançada, demonstrando que o declínio imunológico que ocorre com a idade pode prejudicar a capacidade de controlar a infecção por SARS-CoV-2. O atraso na diminuição viral também foi relacionado com maior duração dos sintomas antes da hospitalização, com comprometimento respiratório e com linfopenia (diminuição no número de linfócitos), indicando que esses fatores podem refletir em uma forma mais grave da doença. Ou seja, o atraso na eliminação viral está associado à idade e a doenças mais graves, mas não ao uso de corticosteroides.

Outro ponto que foi considerado pelo estudo é de que o dano pulmonar progressivo está relacionado a uma resposta desregulada de citocinas pró-inflamatórias. O efeito antiinflamatório esteroide desempenha papel no combate a hiperinflamação que caracteriza a progressão da COVID-19.

Os pesquisadores concluiram que, tendo em vista o número crescente de evidências científicas sobre a eficácia do uso de corticosteroides na melhora da sobrevida de pacientes com COVID-19, os achados podem tranquilizar os médicos quanto ao potencial retardo na eliminação viral, uma vez que este estudo concluiu que o atraso na depuração do SARS-CoV-2 em COVID-19 moderado ou grave está associado à idade avançada e a uma doença mais grave, mas não ao uso precoce de corticosteroides

Fonte: V. Spagnuolo, M. Guffanti e colaboradores. Viral clearance after early corticosteroid treatment in patients with moderate or severe covid-19. Artigo publicado na revista Nature em 04 de dezembro de 2020
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-020-78039-1

Enviado por: Eduarda Ruch, acadêmica do curso de Medicina da UFSM e aluna de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica.
Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/2275411296482481

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