Bullying: Agredidos e Agressores tem maiores probabilidades de abuso de substâncias e transtornos mentais

2020 foi notoriamente um ano de atenções voltadas para a terceira idade e pessoas com comorbidades. Porém, não devemos nos esquecer da parcela mais jovem da população e os males que as afligem. Sendo reconhecidamente um período vulnerável e de maior exposição a comportamentos considerados de risco, a adolescência e suas peculiaridades devem ser observadas de perto neste período delicado de pandemia. Com a suspensão das aulas presenciais, o estabelecimento do ensino a distância (EAD), o aumento do tempo online e a diminuição da supervisão fornecida pelo ambiente escolar, a mazela do bullying e o cyberbullying ganhou espaço entre os jovens.

   O bullying se refere aos atos de intimidação psicológica e/ou física, sem motivação aparente e que causa dor e/ou humilhação a uma pessoa ou grupo alvo. Pode ser cometido por um ou mais indivíduos, tendo como vítimas aqueles considerados “frágeis”, mais introspectivos e com dificuldade de socialização. Segundo dados de 2015, divulgados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, um em cada dez estudantes brasileiros é vítima de bullying, isso sem levar em consideração o cyberbullying, que é tão relevante no nosso contexto atual.

   O Cyberbullying é visto como uma continuação do bullying, esses atos são potencializados pelo possível anonimato que é fornecido pela internet, podendo envolver a produção de Fake News e difamações visando o impacto psicológico do seu alvo. Devemos atentar que com o alcance do cyberbullying, as vítimas podem sofrer uma humilhação e sofrimento muito maior, tendo em vista que pessoas que nem ao menos a conhecem podem se envolver negativamente, gerando praticamente um linchamento virtual.

   Esse comportamento de bullying e cyberbullying pode surgir em um adolescente por uma confluência de diversos fatores como hiperatividade, impulsividade, distúrbios comportamentais, violência familiar, carência de supervisão familiar e condições familiares adversas em geral. Geralmente esses são sinais de alerta, que devem ser levados em consideração e despertar preocupação por parte da escola.

   As medidas de monitoramento por parte da escola são primordiais para evitar a ocorrência dessa prática. Sendo essas instituições responsáveis por observar o rendimento dos alunos e se atentar para quedas bruscas; observar mudanças de comportamento; incentivar a solidariedade e o respeito às diferenças; incentivar um ambiente favorável a comunicação entre os alunos; lidar adequadamente com os casos relatados e fornecer uma assistência psicológica aos envolvidos, para tentar minimizar os efeitos negativos a curto e longo prazo.

   As vítimas dessa prática reprovável, podem desenvolver depressão, baixo autoestima, ansiedade e desinteresse pelos estudos. Entretanto, não apenas as vítimas estão sujeitas a essa vulnerabilidade, como também os agressores são afetados negativamente a longo prazo, podendo apresentar baixa autoestima na fase adulta, assim como dificuldade de manter boas relações pessoais e profissionais, agindo com agressividade quando confrontados com problemas.

   Uma consequência que afeta igualmente os envolvidos é a elevada propensão ao abuso de substâncias. Estudos apontam que todos os envolvidos no bullying, tanto vítimas quanto agressores, têm maior predisposição ao uso de substâncias como o álcool, tabaco e drogas de abuso, o que os expõem a comportamentos de risco à saúde.

   Em suma, essa questão se mostra mais pertinente do que nunca e carece de mais visibilidade, pois as consequências do bullying seja “ao vivo” ou de modo virtual, são uma questão de saúde pública, contribuindo para os altos índices de transtornos mentais, suicídios e abuso de substâncias por parte dos adolescentes. Tão importante quanto tratar os adultos que desenvolveram essas condições, é cuidar para que cada vez menos adolescentes sejam expostos a esse tipo de trauma

Fonte: Arcadepani FB, Eskenazi DYG, Fidalgo TM, Hong JS. An Exploration of the Link Between Bullying Perpetration and Substance Use: A Review of the Literature. Trauma, Violence, & Abuse.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31046605/

Enviado por: Wellington Claudino Ferreira, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9944318241574135

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