Mães cientistas tem maior impacto da pandemia em suas carreiras, com queda de produtividade acentuada em relação a homens

Os problemas que as mães enfrentam no ambiente acadêmico são discutidos há bastante tempo, e exemplos dessa disparidade são relatados em questão de salários, demandas de serviço, publicações, submissões de bolsas e taxas gerais de financiamento. A pandemia COVID-19 está expondo ainda mais essas desigualdades, pois as mulheres cientistas que cuidam de crianças e ao mesmo tempo se envolvem em deveres acadêmicos estão “ficando para trás”. Com o trabalho de casa, infelizmente, as disparidades de gênero já existentes foram exacerbadas, criando desafios adicionais para as mulheres que lidam com a dupla jornada, seja cuidando da casa, seja cuidando dos filhos, e dificultando que elas mantenham a produtividade na ciência.

Alguns estudos demonstram que a proporção de publicações feitas por mulheres caiu no início da pandemia, e que as mães tiveram 33% de horas dedicadas à pesquisa a menos que os pais, de acordo com uma pesquisa realizada com 20.000 doutores que publicaram artigos no  National Bureau of Economic Research working paper em janeiro de 2021. Essa pesquisa também descobriu que as mães assumiram, durante a pandemia, mais tarefas domésticas e ocupam mais tempo cuidando dos filhos em comparação aos pais. Durante os meses em que as medidas do COVID-19 exigiram que as pessoas ficassem em casa, as cientistas mulheres enviaram notavelmente menos documentos que os cientistas homens, especialmente no que se refere a documentos sobre a síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 e COVID-19.  Como consequência da pandemia, os pesquisadores que enfrentam restrições de tempo encontram maiores dificuldades de contribuir com seus conhecimentos para as oportunidades de pesquisa do COVID-19.

Essa realidade foi constatada, por exemplo, no Canadá, no início da pandemia. Em fevereiro de 2020, os Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde (CIHR) abriram um edital para financiamento de pesquisas sobre COVID-19, mas o prazo para o envio das propostas foi de 8 dias, e apenas 29% das propostas enviadas eram lideradas por mulheres (cerca de 7 pontos percentuais a menos que o a proporção normal em prazos maiores). Na segunda rodada de envios, o prazo de envio foi ampliado para 19 dias, a burocracia foi reduzida, e o número de propostas lideradas por mulheres pulou para 39%.  Depois de constatado que as mulheres foram prejudicadas pelo curto prazo de envio, e afim de aumentar a qualidade da pesquisa, o CIHR criou um documento intitulado “Por que sexo e gênero precisam ser considerados na pesquisa COVID-19”, com o objetivo de combater a discrepância percebida na primeira rodada de envios.

De acordo com algumas mulheres que cogitaram enviar pesquisas para essa entidade, o prazo de oito dias era muito curto para conciliar com as atividades domésticas e com os filhos.

Robin Nelson, da Universidade de Santa Clara acredita que a COVID-19 tenha colocado muitas desigualdades já existentes em destaque.  Suas horas de trabalho foram reduzidas quando seus filhos deixaram de ir à escola. Ela defende que “algumas pessoas estão simplesmente trabalhando contra mais obstáculos do que outras.”

Para Robinson Fulweiler, ecologista da Universidade de Boston, as universidades e programas de financiamento deveriam dar aos cientistas a opção de enviar declarações descrevendo com a COVID-19 impediu seu trabalho. Para Fulweiler, os empregadores também devem tomar medidas para garantir que todos os pesquisadores tenham acesso a creches a preços acessíveis, no caso de terem filhos que possam tomar tempo de trabalho. Ela e outras mães cientistas detalham essas recomendações e muitas outras em um artigo de opinião publicado na PLOS Biology, que discuteEstratégias para Apoiar Mães Acadêmicas durante a Pandemia Global COVID-19”.

Robin Nelson concorda com isso e espera que a COVID-19 deixe um espaço para que os pesquisadores tenham uma vida plena que possa envolver deficiências, doenças crônicas, cuidados de qualquer tipo e qualquer coisa que seja fora do trabalho, como o cuidado com a casa e com os filhos. Para ela é necessário começar a pensar sobre como é um ambiente acadêmico sustentável, com professores saudáveis, ​​e como podemos abrir espaço para que os docentes tenham uma vida fora do trabalho sem pensar que estamos comprometendo o rigor.

Fonte: Witteman, H. O; Haverfield, J; Tannenbaum, C. COVID-19 gender policy changes support female scientists and improve research quality.  Proceedings of the National Academy of Sciences. 9 fev. 2021.
Disponível em: https://www.pnas.org/content/118/6/e2023476118

Langin, Katie. Revista Science Careers. 9 fev. 2021.
Disponível em: https://www.sciencemag.org/careers/2021/02/pandemic-hit-academic-mothers-especially-hard-new-data-confirm

Enviado por: Júlia Diettrich Traesel – Acadêmica de Medicina e aluna de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica da UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1094747370794264

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