A infecção pela Covid-19 gera imunidade? Dados de estudo com mais de 25 mil pessoas trazem esperança

A pandemia ocasionada pelo Coronavírus deixou a ciência à mercê de inúmeros questionamentos acerca da forma como o vírus se comporta, quais as principais formas de transmissão, sintomas, agravos… Passado mais de um ano após o SARS-CoV-2 mudar totalmente a rotina de pessoas do mundo inteiro, na semana passada, precisamente 09/04/2021 foi publicado um estudo apontando novas informações acerca de uma possível imunidade após a infecção viral. Esses estudos que vêm sendo desenvolvidos para verificar a prevalência do vírus no organismo após o contato viral acontecem desde o início da pandemia, porém, atualmente, com um espaço de tempo maior para análise dos indivíduos que foram infectados, os resultados parecem mais promissores. Os casos de reinfecção da doença vêm sendo publicados na literatura desde junho de 2020, mesmo que mais de 90% dos indivíduos infectados desenvolvam anticorpos 1 semana após o início dos sintomas, com uma provável persistência de, em média, três meses. Por conta disso, pesquisadores ingleses realizaram um estudo para avaliar se há redução do risco de ser sintomático ou assintomático caso ocorra a reinfecção.

Em primeiro lugar, os indivíduos que participaram do estudo foram atendidos em vários hospitais públicos do Reino Unido. Os participantes foram divididos em aqueles que tinham um teste PCR positivo para Covid-19 e os que tinham o teste sorológico negativo, com ou sem PCR. A reinfecção foi definida como participante que teria duas amostras de PCR positivas em 90 ou mais dias de intervalo. Foi utilizado como parâmetro a data mais antiga do primeiro teste PCR positivo e, caso este não estivesse disponível, o primeiro resultado de anticorpos positivo (a famosa presença de IgG reagente, que é testada na maioria dos laboratórios).

Assim, foram incluídos nessa pesquisa 25.661 participantes, desses quase 70% já possuía um teste positivo de Covid-19, e o restante era negativo. A maioria dos participantes foram mulheres (87,3%) e a média de idade foi de 45,7 anos. O tempo médio de acompanhamento de cada participante foi de cerca de 275 dias para os com teste positivo e de 195 dias para os com teste negativo. Além disso, como limitação de dados, cerca de 52% dos participantes foi vacinado durante o período de acompanhamento. Em relação aos resultados, percebe-se que, ao todo, 1859 novas infecções foram detectadas no grupo de estudo, sendo 1704 no grupo que até então não tinha tido contato com o vírus e 155 dos participantes tiveram reinfecções.

A título de interesse, vale relembrar do estudo semelhante publicado em abril de 2020, no qual realizou-se pesquisa em 285 indivíduos em três hospitais chineses e verificou-se que 100% dos pacientes que haviam sido contaminados pela Covid-19 apresentaram IgM e IgG positivos após cerca de 19 dias do início do quadro sintomático e, portanto, haviam criado imunidade contra o vírus. Vale ressaltar que o IgM se apresentava em alta quantidade no início do quadro sintomático, visto que essa imunoglobulina é considerada um marcador de infecção. Já o IgG era visível posteriormente, na maioria dos casos, por ter uma atividade de defesa mais específica e se manter presente no organismo após finalizar o quadro viral. Ademais, percebeu-se que quadros mais graves (com dificuldade respiratória, por exemplo), apresentaram a taxa de IgM superior aos quadros assintomáticos para a Covid-19. Essa explicação é dada pela necessidade maior do organismo em combater o invasor no caso de maior infecção. Contudo, observou-se que, com o passar do tempo, os níveis dessas proteínas tendem a se igualar em ambos infectados. Por fim, são necessárias pesquisas para avaliar criteriosamente as diversas situações clínicas ocasionadas pelo SARS-CoV-2 e, desse modo, intensificar os achados oferecidos por meio do teste com imunoglobulinas.

Portanto, de acordo com o estudo publicado na semana passada, pode-se notar que a infecção anterior reduziu a incidência de reinfecção em pelo menos 84%. Após 7 meses de acompanhamento, este grande estudo observacional mostrou que infecção anterior por SARS-CoV-2 protege a maioria dos indivíduos contra a reinfecção em média 7 meses. Esses resultados são promissores e nos dão esperança de melhora da situação pandêmica atual, sobretudo com a vacinação.

Fonte: Victoria Jane Hall e colaboradores. SARS-CoV-2 infection rates of antibody-positive compared with antibody-negative health-care workers in England: a large, multicentre, prospective cohort study (SIREN). Artigo publicado em 9 de abril de 2021.
Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(21)00675-9/fulltext

Enviado por: Gean Scherer da Silva, acadêmico do curso de Medicina da UFSM e aluno de iniciação científica do Laboratório de Biogenômica.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7600572242471748

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