Alzheimer: Mais uma peça neste quebra-cabeça

Os últimos anos foram marcados pelo surgimento de epidemias e pandemias que chamaram a atenção da sociedade como um todo, deixando gravado em suas memórias a participação dos microrganismos no processo de adoecimento. Contudo, é preciso ressaltar que nem todas as doenças são causadas por microrganismos, sendo alguns processos de adoecimento ainda não bem estabelecidos.

O Alzheimer é uma dessas doenças que não possui sua causa (etiologia) bem definida. O comprometimento cognitivo e demência acometem cerca de 30 milhões de pessoas no mundo, sendo o Alzheimer responsável por 60-80% desses casos. A demência é um termo generalista para a perda de memória e habilidades cognitivas que afetam a vida diária, por ser uma doença neurodegenerativa progressiva, os sintomas do Alzheimer pioram gradualmente ao longo do tempo, passando de uma perda leve de memória nos estágios iniciais, para uma incapacidade de comunicação e interação adequada com o ambiente. Esse impacto no funcionamento cognitivo se deve a dificuldade de comunicação entre os neurônios e sua eventual morte celular. Apesar de sua etiologia ainda não definida, novas evidências sugerem uma ligação entre o Alzheimer e a barreira hematoencefálica.

O nosso cérebro possui diversas artérias e veias que garantem o suprimento sanguíneo adequado para o seu funcionamento, entretanto, todos os nutrientes, fármacos e outros componentes do sangue que chegam até os neurônios, precisam antes atravessar a chamada barreira hematoencefálica. Essa barreira é composta de células endoteliais vasculares e de suporte, atuando como uma proteção que impede neurotoxinas e patógenos de deixarem os vasos sanguíneos e adentrarem o sistema nervoso central. Estudos recentes sugerem que um dano disseminado nessa barreira poderia contribuir de algum modo para o surgimento do Alzheimer.

Utilizando a nova técnica de ressonância magnética não contrastada WEPCAST, foi possível identificar um aumento de permeabilidade da barreira hematoencefálica de indivíduos com Alzheimer em comparação com aqueles sem alterações cognitivas. Essa permeabilidade permite que moléculas pequenas, na proporção das moléculas de água, cheguem ao cérebro, possivelmente contribuindo para inflamação e o processo de degeneração característico dessa doença, estando essa permeabilidade associada a marcadores de Alzheimer como CSF Aβ e ptau.

O mecanismo que dá origem a essas lesões disseminadas da barreira hematoencefálica ainda não pôde ser estabelecido, tendo em vista que essa correlação é um campo de pesquisa relativamente novo. Algumas hipóteses já foram propostas, como o acúmulo da proteína amilóide nos vasos cerebrais. Esse acúmulo já foi anteriormente relacionado ao surgimento do Alzheimer, agora sendo indicado como responsável por esse dano disseminado, ressaltando assim a sua importância como um marcador dessa doença.

Essas descobertas são importantes para compreender toda a fisiopatologia dessa doença, o que contribui para o desenvolvimento de tratamentos. Para chegarmos a uma eventual cura para o Alzheimer, é necessário que saibamos os seus mecanismos de dano, para que seja possível intervir em seu avanço e possivelmente reverter o quadro de demência. Vale ressaltar, que essas pesquisas também contribuem para estabelecer os fatores de risco para o desenvolvimento do Alzheimer, o que pode levar ao estabelecimento de medidas para prevenir o seu surgimento, o que contribui para a redução da triste estatística que compõem o número de pessoas que convivem com essa doença tão avassaladora.

Fonte: Lin BSZ, Sur S, Liu P, Li Y, Jiang D, Hou BSX, Darrow J, Pillai JJ, Yasar S, Rosenberg P, Albert M, Moghekar A, Lu H. Blood-brain barrier breakdown in relationship to Alzheimer and vascular disease. Ann Neurol. 2021.
Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ana.26134

Enviado por: Wellington Claudino Ferreira, acadêmico do Curso de Medicina e aluno de iniciação científica do Laboratório Biogenômica-UFSM
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9944318241574135

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × 5 =