Fome oculta: a pobreza nutricional pode ser tão grave quanto a falta de alimentos

A alimentação é um direito básico previsto em lei e enfatizado por diversas organizações de proteção que visam possibilitar promoção ao melhor desenvolvimento possível para grupos cujo acesso a esse item primordial está prejudicado. O que precisa ser evidenciado, nesse caso, é que não se alimentar é diferente de alimentar-se com baixa qualidade, como é o caso de populações em regiões da África Subsaariana. A baixa quantidade de vitaminas e minerais essenciais não supre corretamente as necessidades da população, que embora consuma diariamente as calorias recomendadas consumidas, não obtém os nutrientes necessários para um correto desenvolvimento, principalmente para mulheres e crianças.

Avaliar a deficiência nutricional em grandes áreas é uma tarefa difícil, pois requereria análise sanguínea de centenas de indivíduos para um correta mensuração das necessidades daquele local. Uma alternativa a esse processo mais demorado, caro e complexo tem sido a análise do solo, de plantas e grãos presentes nesses ambientes a fim de caracterizar pontos positivos ou negativos nutricionais do local.

Cientistas organizaram uma logística em torno da época de colheita em regiões do Malawi e Etiópia, na África, países com cerca de 3.5 mil quilômetros de distância, um percurso parecido com o de Porto Alegre (RS) à Alagoas. Os cereais bases de cada país foram avaliados, sendo o trigo e o teff (semente muito pequena também usada para produzir farinha) na Etiópia e o milho no Malawi. Foi verificado que os dois primeiros grãos podem contribuir com até um quarto do cálcio necessário a dieta (25%), enquanto o milho forneceria cerca de 3%, ainda, este último só contribui com um quarto da necessidade de selênio (25%), metade da necessidade de ferro (50%) e três quartos da de zinco (75%).

Existe uma variabilidade muito grande na presença e quantidade de nutrientes nesses grãos e isso não está, necessariamente, associada a pobreza do solo. O que ocorre é que muitos nutrientes estão em formas insolúveis, ou seja, que as plantas não conseguem absorver. Ainda, as plantas fazem uma absorção seletiva, escolhendo os nutrientes necessários ao seu desenvolvimento. Alguns desses nutrientes, quanto dentro da planta, não podem ser remobilizados, em outras palavras, uma vez destinado ao local necessário, como o cálcio e o ferro nas folhas jovens, não podem ser retirados e destinados a outro local, como para parte que será usada na alimentação. O processamento desses grãos também pode ser uma variável no fornecimento de nutrientes, uma vez que sua manipulação, como na maceração para produzir farinha, pode retirar uma ampla gama de nutrientes, ou ainda, a sua associação com outros tipos de compostos alimentares, como os fitatos, por exemplo, podem reduzir a absorção de certos nutrientes no intestino humano.

O mapeamento de micronutrientes no solo e nas plantas pode gerar uma estimativa, mas estabelecer ligações entre sua composição e a influência na dieta humana é uma pouco mais complexo. Uma variedade de técnicas pode ser desenvolvida para utilização no local, envolvendo desde a fertilização do solo até o manejo orgânico para possibilitar maior biodisponibilidade de nutrientes, processo que é tratado como biofortificação agronômica. Ainda, a curto prazo, é válido ressaltar que, caso você tenha essa possibilidade, a melhor atitude ainda é a boa e velha “misturinha”.

Fonte: Giller, K. E. & Zingore, S. Mapping micronutrients in grain and soil unearths hidden hunger in Africa. Nature, v. 594, p. 31-32, 2021.

Enviado por: MSc. Moisés Henrique Mastella. Biólogo, Doutorando em Farmacologia Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4345010332881664

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