O impacto da pandemia da COVID-19 sobre a saúde mental de adolescentes

Com o surgimento da pandemia da COVID-19, muitas medidas restritivas foram implementadas, a fim de prevenir e conter a transmissão do vírus SARS-CoV-2, que é o responsável pela doença. Esse cenário impactou em transtornos generalizados na vida dos adolescentes e de seus familiares. Os resultados iniciais sobre a saúde mental dos adolescentes durante a COVID-19 devem ser motivo de preocupação, sugerindo um aumento nos sintomas depressivos e no consumo de álcool.

No entanto, a pesquisa destinada a compreender como a saúde mental dos jovens é afetada pela COVID-19 torna-se complexa por vários motivos: Primeiro, os adolescentes estão em um estágio de desenvolvimento vulnerável, com a maioria dos transtornos mentais surgindo durante essa fase da vida; segundo, a prevalência de problemas de saúde mental e de certos tipos de uso de substâncias tem aumentado nos últimos 20 anos, assim, as medidas de prevalência de vários períodos de tempo pré-pandêmicos são necessárias para separar o efeito da COVID-19 de outras tendências recentes na saúde mental do adolescente; terceiro, a adolescência é um período de desenvolvimento marcado por rápidas mudanças biológicas e sociais, resultando em grande variação dependente da idade e do gênero. Assim, para superar esses desafios, são necessários estudos com amostras grandes e representativas, para comparar pares da mesma idade antes e durante a pandemia.

Nesse sentido, pesquisadores da Islândia realizaram um estudo longitudinal (método de pesquisa que visa analisar as variações nas caraterísticas dos mesmos elementos amostrais durante um longo período de tempo) de base populacional, com o objetivo de investigar, em uma população adolescente, os efeitos na saúde mental e no uso de substâncias, durante 2 períodos: antes da pandemia (em 2016 e 2018) e durante a pandemia da COVID-19 (em outubro de 2020). As pesquisas foram realizadas em uma amostra de jovens islandeses, entre 13 e 18 anos de idade, e os parâmetros avaliados foram: sintomas depressivos, bem-estar mental, frequência de tabagismo, uso de cigarro eletrônico e intoxicação por álcool.

No total, 59.701 respostas foram incluídas na pesquisa. Foi observado um aumento nos sintomas depressivos e piora do bem-estar mental em todos os grupos de idade durante a pandemia, em comparação com pares da mesma idade antes da COVID-19. Esse aumento foi acima do que era esperado, com base em tendências anteriores observadas na deterioração da saúde mental dos adolescentes, indicando que, embora esse resultado não possa ser atribuído total e exclusivamente à pandemia, ela pode ter exacerbado as tendências já presentes na população adolescente. Além disso, esses dados foram significativamente piores em meninas, em comparação com meninos.

O estudo também revelou um declínio no tabagismo, uso de cigarro eletrônico e intoxicação por álcool entre os adolescentes de 15 a 18 anos de idade, durante a pandemia da COVID-19, sem diferenças de gênero. As restrições sociais implementadas para prevenir a disseminação da COVID-19 podem ter resultado em menos pressão social e menos recompensas pela exploração do uso de substâncias, o que pode conferir alguma proteção contra transtornos futuros por uso de substâncias e dependência, que frequentemente surgem durante a adolescência.

Em comparação com muitos outros países, as restrições sociais relacionadas à pandemia na Islândia foram mínimas, o que sugere que o aumento das medidas restritivas implementadas em outros lugares, provavelmente, produzirá efeitos ainda maiores na saúde mental. Além disso, alguns grupos de adolescentes tendem a ser mais vulneráveis a apresentar problemas de saúde mental do que outros, como aqueles que vivem na pobreza ou com problemas de saúde mental preexistentes, sugerindo que o verdadeiro impacto da pandemia pode ser ainda mais pronunciado.

Por fim, os dados obtidos neste estudo são preocupantes e, provavelmente, refletem um aumento real dos problemas de saúde mental. No entanto, mais pesquisas para estabelecer o efeito de longo prazo da pandemia nos resultados de saúde mental e no uso de substâncias são extremamente importantes e necessárias, em diferentes grupos da população adolescente. Com a pesquisa emergindo rapidamente sobre essas questões, intervenções mais direcionadas podem ser desenvolvidas para mitigar o impacto negativo da pandemia na saúde mental dos adolescentes.

Fonte: I. E. Thorisdottir e colaboradores. Depressive symptoms, mental wellbeing, and substance use among adolescents before and during the COVID-19 pandemic in Iceland: a longitudinal, population-based study. Artigo publicado na revista The Lancet Psychiatry, em 3 de junho de 2021.
Disponível em: https://doi.org/10.1016/S2215-0366(21)00156-5

Enviado por: MSc. Cibele Ferreira Teixeira – Doutoranda em Farmacologia, Universidade Federal de Santa Maria.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9457577413344566

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