O que é o temido fungo negro que afeta pacientes com COVID-19?

Após mais de um ano do início da pandemia de Covid-19, o número de pessoas infectadas continua em ascensão, concomitantemente cresce também o número de complicações associadas a doença, dentre elas coinfecções que contribuem para elevação da taxa de mortalidade. Nas últimas semanas, vem ganhando atenção midiática o aumento mundial do número de casos de casos do chamado “fungo preto ou negro” em pacientes com infecção por SARS-CoV-2.

Alguns fatores envolvidos na patogênese da Covid-19 explicam a maior predisposição ao desenvolvimento de coinfecções, dentre eles, destaca-se o drástico impacto no sistema imunológico provocado pelo vírus causador dessa doença. A redução significativa e persistente do número de linfócitos, células de defesa que desempenham um papel importante na manutenção da homeostase imunológica, é um dos fatores mais importantes que torna estes pacientes altamente suscetíveis a coinfecções fúngicas. Além disso, outro agravante desencadeado pela doença é o dano aos tecidos pulmonares e as lesões alvéolo-intersticiais, que tornam o doente com Covid-19 propenso a contrair infecções fúngicas invasivas, especialmente aquelas que são transmitidas pelo ar.

Recentemente, uma infecção fúngica oportunista vem ganhando destaque devido ao aumento repentino do número de casos em pacientes com Covid-19 em todo mundo. O chamado fungo negro, é na verdade, a mucormicose, um tipo de infecção fúngica rara e bastante grave, com taxa global de letalidade estimada em 46%. Essa patologia é mais comumente vista em pacientes imunocomprometidos, como aqueles com diabetes mellitus não controlado, cetoacidose diabética (tipo de complicação aguda do diabetes), presença de uma ferida aberta, HIV/AIDS, câncer e transplante de órgãos. Os fungos causadores da mucormicose estão onipresentes no meio ambiente e sua principal via de infecção é a inalação de esporos (células fúngicas capazes de originar novos fungos), que se espalham para os seios paranasais e para os pulmões. A mucormicose não é patológica em indivíduos imunocompetentes devido à presença de uma imunidade intacta que, portanto, permite a eliminação desses esporos.

No entanto, em pacientes imunocomprometidos e naqueles com Covid-19 esse patógeno produz doença por invasão de vasos sanguíneos com consequente trombose e necrose (morte) dos tecidos. Essa invasão pode desencadear complicações graves, como trombose do seio cavernoso (coágulo sanguíneo se forma em uma veia grande na base do crânio), infecção disseminada e osteomielite (infecção do osso). Além disso, por possuir potencial de invadir vários sistemas do corpo, a mucormicose resulta em um grande número de sintomas clínicos que progridem rapidamente, sendo mais comumente relacionados à doença o inchaço em um lado da face, febre, dor de cabeça, congestão nasal ou sinusal e lesões pretas no nariz ou parte interna da boca.

Com base no sítio anatômico envolvido, esse tipo de micose pode ser classificado nas seguintes formas: mucormicose gastrointestinal (mais comum em crianças), mucormicose rinocerebral (mais comum em pessoas com diabetes não controlada e em pessoas que fizeram transplante renal), mucormicose disseminada, mucormicose pulmonar (mais comum em pessoas com câncer e em pessoas que tiveram um transplante de órgão ou de células-tronco) e mucormicose cutânea. Por fim, essa micose possui um diagnóstico difícil, podendo ser identificada por meio de exames de sangue de rotina, biópsia e imagens radiológicas. O protocolo padrão para o manejo é principalmente a reversão dos fatores de risco, desbridamento cirúrgico (remoção do tecido infectado e morto) e medicação antifúngica intravenosa, como a anfotericina B. O acometimento de extensas regiões na face em pacientes com mucormicose muitas vezes demanda uma remoção de grandes áreas do rosto na tentativa de conter a doença, e, dessa forma, pode provocar deformidades faciais.

Assim, percebe-se que a coinfecção de pacientes com Covid-19 pela mucormicose é bastante grave, elevando significativamente a mortalidade desse grupo. Neste contexto, o desenvolvimento de estratégias de detecção e tratamento precoces são essenciais, a fim de melhorar o prognóstico desses indivíduos. Uma alta suspeita para essa doença deve ser considerada em pacientes imunocomprometidos, além disso, é importante uma avaliação constante dos fatores de risco que predispõem à doença. Por fim, por se tratar de uma complicação reconhecida apenas recentemente, são necessários estudos adicionais para compreender o papel das infecções oportunistas em pacientes com Covid-19 e, dessa forma, atuar no manejo clínico dessas infecções de forma mais eficiente a fim de reduzir a mortalidade.

Fonte: Bhatt e colaboradores. Publicado na revista Discoveries Journals em março de 2021.
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8137279/

Enviado por: Joana Rosa Rodrigues – acadêmica de Medicina e aluna de iniciação científica Laboratório Biogenômica – UFSM.
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1465826570691475

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