Como algumas células de câncer conseguem resistir à quimioterapia?

O câncer pode recidivar (reaparecer após a cura) quando um grupo de células tumorais sobrevive à quimioterapia. Mas por que isso ocorre? A maioria dessas células persistentes estão quiescentes durante o tratamento, ou seja, permanecem em repouso, sem se dividir). Contudo, há uma parte dessas células que pode retornar à sua divisão celular (células cíclicas), tornando-se aptas a proliferar e dar origem a novas células.

Compreender como ocorre tal evento pode levar a melhores terapias anticâncer. Por isso, grande parte dos cientistas foca no estudo dos mecanismos genéticos que estão por trás dessa resistência, mas pesquisas recentes têm demonstrado que fatores não genéticos podem também influenciar o processo.

Um estudo analisou células de pacientes com câncer de pulmão, as quais foram cultivadas em laboratório e tratadas com o quimioterápico Osimertinibe. Foi constatado que, mesmo inibindo as mutações genéticas dessas células, algumas das linhagens deram origem a células persistentes após 14 dias de tratamento. Ainda, algumas destas voltaram a se dividir. Para descobrir quais foram os mecanismos disso, os pesquisadores criaram um sistema chamado “Melancia” (em inglês, Watermelon), que rastreia as linhagens de células persistentes e consegue ver seu comportamento de divisão celular. A fim de determinar se o surgimento de células resistentes foi devido a uma condição genética o que seria irreversível ou não, eles ressubmeteram as células persistentes ao tratamento. Caso estas células mantivessem resistência à quimioterapia, a causa seria uma mutação genética irreversível. Contudo, se elas fossem sensíveis ao medicamento, indicaria uma causa não genética e reversível. E foi o que aconteceu.

E quais são esses mecanismos não genéticos? Descobriu-se que as células que voltaram a se dividir possuíam mecanismos de defesa antioxidante, ou seja, maneiras de combater e resistir ao estresse oxidativo causado pelo Osimertibe, que é um fármaco que induz a produção de muitas espécies reativas de oxigênio (EROs). O estudo indicou que, ao final do tratamento, as células resistentes cíclicas possuíam menores níveis de EROS.

Diante dessas descobertas, os mesmos cientistas aplicaram o modelo “Melancia” em outros tipos de câncer, como melanoma, mama e colorretal. A maioria dos modelos demonstrou perfil semelhante ao encontrado no câncer de pulmão. Um dos desafios desses estudos é que as células persistentes são apenas uma pequena parcela das células tumorais, sendo difícil seu rastreio. Apesar disso, uma possível inibição desses mecanismos de resistência pode dar luz a novos tratamentos anticâncer. Os resultados são promissores e pesquisas clínicas com seres humanos deverão ser realizadas.  

Fontes:

Karen Gomez & Raul Rabadan. A persistent look at how tumours evade therapy. Publicado na seção News da revista Nature, em 26 de agosto de 2021. doi: https://doi.org/10.1038/d41586-021-02117-1
Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-021-02117-1?proof=t+target%3D

Yaara Oren e colaboradores. Cycling cancer persister cells arise from lineages with distinct programs. Publicado na revista Nature, em 11 de agosto de 2021. https://doi.org/10.1038/s41586-021-03796-6
Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-021-03796-6#citeas

Enviado por: Luiza Elizabete Braun – Acadêmica do curso de Medicina da UFSM e aluna de Iniciação Científica do Laboratório de Biogenômica. 
Currículo Lattes:http://lattes.cnpq.br/8218583647133629

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